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VIOLÊNCIA NO CEARÁ

Áudios de presidiários revelam ordens para ataques no Ceará: 'toca fogo lá na prefeitura'

Estado vive onda de crimes coordenados por facções que tentam fazer com que o governo desista de medidas que tornam mais rigorosa a fiscalização nos presídios.

14 janeiro 2019 - 10h55

Áudios compartilhados entre membros de facções do Ceará revelam ordens de presidiários para que comparsas ataquem veículos e prédios públicos. As mensagens chegaram até as autoridades após a apreensão de 407 aparelhos de celulares nos presídios, em 6 de janeiro.

Em uma mensagem, um detento ordena: "Uns toca fogo na prefeitura, uns toca fogo nas coisa lá dos policial, tá ligado?" O Palácio Municipal da Prefeitura de Maracanaú, na Grande Fortaleza, foi um dos 49 prédios públicos atacados no Ceará. "Agora a bagunça vai começar é com força", diz outra mensagem de áudio. “Agora nós vamos parar os ônibus, vamos tocar fogo com vocês dentro”, ameaça um terceiro detento.

A sequência de crimes é uma tentativa de fazer com que o secretário da Administração Penitenciária, Luís Mauro Albuqurque, desista de medidas que tornam mais rigorosa a fiscalização no sistema penitenciário. "Vocês vão tirar esse secretário aí dos presídios. Vocês vão ver, vai piorar é pra vocês", ameaça um criminoso.

Áudio com ordens de ataques foram identificados em celulares apreendidos no sistema penitenciário do Ceará — Foto: Seap/Divulgação

Áudio com ordens de ataques foram identificados em celulares apreendidos no sistema penitenciário do Ceará — Foto: Seap/Divulgação

Em entrevista em 1º de janeiro, ao tomar posse da secretaria criada no segundo mandato de Camilo Santana, Mauro Albuquerque afirmou que não iria reconhecer as facções nos presídios e prometeu medidas para impedir a entrada de celulares nas celas.

Atualmente, a divisão de presos no Ceará é feita conforme a facção da qual cada interno é membro. O secretário pretende acabar com esse critério. "O que nós estamos fazendo é cumprindo a lei dentro dos presídios", disse o governador Camilo Santana.

Áudios também compartilhados em redes sociais revelam o secretário Mauro Albuquerque ordenando apreensões de celulares e televisores nas unidades prisionais. "Vamos intensificar as gerais dentro das unidades. É pra estar dando geral aí até a gente estar arrancando esses celulares tudinho dentro da cadeia, tá ok?", ordena Albuquerque aos agentes penitenciários.

 

Secretário 'linha dura'

Secretário Mauro Albuquerque ganhou fama de linha dura entre criminosos após ação no sistema penitenciário de Rio Grande do Norte — Foto: Camila Lima/SVM

Secretário Mauro Albuquerque ganhou fama de linha dura entre criminosos após ação no sistema penitenciário de Rio Grande do Norte — Foto: Camila Lima/SVM

 

Mauro Albuquerque ganhou fama de "linha dura" entre criminosos após reformar o presídio de Alcaçuz, no Rio Grande Norte. Em 2017, uma rebelião na unidade deixou pelo menos 26 mortos. Lá, Albuquerque acabou com a separação de presos por facções e implantou rotinas de inspeções e disciplina.

Ele foi convidado por Camilo Santana a fazer o mesmo nas unidades do Ceará. "Eu não reconheço facção, o estado não deve reconhecer facção", afirma o secretário.

As medidas do governo mexem com o domínio das facções nos presídios. Há três anos, as unidades foram separadas por grupos criminosos, e as regalias deles só aumentaram nesse tempo, com comunicação total via telefone, ventiladores, grill e uma série de benefícios. "Eles ficavam à vontade e cometendo esses crimes de dentro das unidades prisionais", afirma o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários, Valdemiro Barbosa.

Além de determinar o fim das regalias, o governo fez a transferência de 35 presos nas unidades do Ceará para unidades federais. As cadeias do interior que estavam precarizadas e registravam fugas com frequência foram desativadas, e os internos levados a outras unidades.

 

Aumento da violência
Criminosos lançaram bomba no prédio do Juizado Especial Criminal de Fortaleza nesta madrugada — Foto: João Dijorge/Photopress/Estadão Conteúdo

Criminosos lançaram bomba no prédio do Juizado Especial Criminal de Fortaleza nesta madrugada — Foto: João Dijorge/Photopress/Estadão Conteúdo

 

A regalia nos presídios e o crescimento das facções no Ceará elevaram a violência. Há dez anos, a taxa de homicídios no estado era inferior à taxa nacional. Atualmente o Brasil tem uma 28 homicídios por 100 mil habitantes; no Ceará a taxa é de 55 mortes por 100 mil habitantes.

"Boa parte dessas mortes realmente são vinculadas a essas guerras, a essa guerra, essa disputa entre grupos criminosos rivais aqui no estado do Ceará. Por isso a decisão realmente de atingir fortemente os interesses desses grupos criminosos", ressalta o secretário da Segurança do Ceará, André Costa.

 

População sofre com o confronto
Detentos ameaçam em áudio destruir ônibus — Foto: Reprodução/ TV Globo

Detentos ameaçam em áudio destruir ônibus — Foto: Reprodução/ TV Globo

 

No meio do conflito entre facções e estado, a população sofre com a onda de violência. "Hoje a comunidade vive um terror. A comunidade está em pânico", diz um educador, que prefere não ser identificado.

Desde a noite de 2 de janeiro, foram registrados pelo menos 202 ataques em 44 municípios do Ceará. Os criminosos incendiaram ônibus, carros, bancos, delegacias e usaram explosivos em torres de comunicação e de distribuição de energia, pontes e viadutos.

Serviços de utilidade pública como coleta de lixo, correios e transporte público foram suspensos em alguns bairros de Fortaleza, onde os ataques são mais frequentes. Em outras cidades, membros de facção ordenaram que comerciantes fechassem as portas, sob ameaça de morte.


Ônibus da banda foi incendiado durante ataque criminoso em oficina de Fortaleza — Foto: Sistema Verdes Mares

Ônibus da banda foi incendiado durante ataque criminoso em oficina de Fortaleza — Foto: Sistema Verdes Mares

 

A população até se juntou pra pagar um carro de frete, caminhãozinho de frete, pra poder juntar o lixo das ruas, botar no caminhão e levar até uma coleta, mas o crime disse que não. Disse que não podia, disse que era pra o lixo ficar nas ruas mesmo, pra mostrar pro estado quem é que manda", afirma uma pessoa, que prefere não se identificar por medo de retaliação.

Desde o início da onda de violência, a polícia deteve 353 suspeitos, um terço é adolescente. "Nossos jovens estão sendo atacados, vítimas de abusos tanto institucionais quanto também por parte do crime organizado", afirma um educador da periferia.

 

Medidas da Assembleia contra os ataques

Deputados estaduais do Ceará votam em sessão extraordinário pacote de medidas para tentar conter violência — Foto: Kilvia Muniz/SVM

Deputados estaduais do Ceará votam em sessão extraordinário pacote de medidas para tentar conter violência — Foto: Kilvia Muniz/SVM

 

Na noite de sábado (12), em sessão extraordinária durante o recesso parlamentar, os deputados estaduais aprovaram um pacote de medidas na tentativa de fortalecer o combate às facções criminosas. As medidas foram sancionadas neste domingo por Camilo Santana.

Estiveram presentes 36 dos 46 deputados estaduais do Ceará. O governador Camilo Santana assinou o pacote neste domingo e publicou em edição extra do Diário Oficial do Estado.

 

As medidas aprovadas por aclamação na Assembleia são:

-Lei da Recompensa, que paga em dinheiro quem denunciar autores de ataques ou fornecer informações que possam prevenir crimes;

-Retirada das tomadas em celas de presídios, para evitar que criminosos possam usar carregadores de celular;


-Aumento de 48 para 84 o máximo de horas extras que policiais civis, militares e bombeiros podem fazer por mês;


-Convocação de policiais da reserva para aumentar o efetivo nas ruas;


-Criação de um banco de informações sobre veículos destruídos na onda de ataques;


-Restrição da presença de pessoas no entorno dos presídios, com objetivo de evitar fugas;


-Criação do Fundo de Segurança Pública, que terá reserva para investir na prevenção de crimes e pagar b-eneficiados da Lei da Recompensa;


-Regularização do comando de tropas de policiais militares cedidas por outros estados (o que na prática já está acontecendo com agentes cedidos pelos governos de Bahia, Piauí, Santa Catarina e Pernambuco).

 

Entenda o que está acontecendo no Ceará

Força Nacional começou a atuar nas ruas de Fortaleza na noite desta sábado — Foto: Camila Lima/SVM

Força Nacional começou a atuar nas ruas de Fortaleza na noite desta sábado — Foto: Camila Lima/SVM

 

-O governo criou a secretaria de Administração Penitenciária e iniciou uma série de ações para combater o crime dentro dos presídios.
-O novo secretário, Mauro Albuquerque, coordenou a apreensão de celulares, drogas e armas em celas. -Também disse que não reconhecia facções e que o estado iria parar de dividir presos conforme a filiação a grupos criminosos.
-Criminosos começaram a atacar ônibus e prédios públicos e privados. As ações começaram na Região Metropolitana e se espalharam pelo interior ao longo da semana.
-O governo pediu apoio da Força Nacional. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, autorizou o envio de tropas; 406 agentes da Força Nacional reforçam a segurança no estado.
-A população de Fortaleza e da Região Metropolitana sofre com interrupções no transporte público, com a falta de coleta de lixo e com o fechamento do comércio.
Onda de violência afastou turistas e fez a ocupação hoteleira no estado cair.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

fonte:g1

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