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De remédios a sacos de lixo, falta quase tudo na Santa Casa

No total, são 74 itens com estoque muito baixo, zerado ou em situação crítica

12 julho 2019 - 12h30

Sem morfina, insulina, agulha, ataduras e até sacos de lixo. O estoque de medicamentos, insumos e materiais diversos da Santa Casa está vazio. A situação do hospital, que também está sem pagar os salários dos médicos autônomos e pessoa jurídica (PJ) – em alguns casos, com atrasos de 6 a 3 meses – e tem dívidas junto aos fornecedores, é crítica. No total, são 74 itens com estoque muito baixo, zerado ou em situação “extremamente crítica”. 

O Correio do Estado teve acesso ao e-mail enviado no fim da tarde de quarta-feira (10) pelo gerente de logística Luiz Gonçalves Mendes Júnior para o diretor administrativo do hospital, Kélson Alves Granja, no qual é relatado o problema. “Em vista da falta de pagamentos a fornecedores de materiais e medicamentos, corre-se o risco de desabastecimento de alguns produtos essenciais para o funcionamento deste hospital”, disse o funcionário. No texto, Mendes revela ainda que a lista de pagamentos necessários e a relação de produtos críticos já foi comunicada previamente aos setores competentes. “Mas, até o momento, os pagamentos não ocorreram”, diz o gerente.

Entre materiais que precisam ser comprados e pagos com urgência há itens básicos como soro fisiológico, ataduras de algodão e de crepe para pacientes ortopédicos, copo descartável e saco de lixo. Outras medicações que deveriam estar disponíveis sem falhas são glicose, insulina, canula para traqueostomia, sonda, agulha para biópsia e compressa para cirurgias.

Morfina também é um dos medicamentos com estoque prejudicado. De acordo com o relatório do hospital, o analgésico está zerado desde quarta-feira (10). No total, 25 itens médico-hospitalares que são utilizados em cirurgias e diversos tipos de tratamento, inclusive oncológico, estão acabando. Outros medicamentos para tratamento contra o câncer estão em situação crítica. A Santa Casa também fez empréstimos de itens de outros hospitais. 

 

CAOS

Enquanto é feito trabalho de organização dos remédios para que os serviços sejam mantidos, as cirurgias e o atendimento ambulatorial estão suspensos. “Por conta da falta de pagamento dos médicos, estão suspensas as cirurgias cardíacas adulto e infantil e também torácica. Na verdade, os pagamentos continuam em atraso para várias especialidades – a maioria dos médicos de regime autônomo e PJ. São vários meses em atraso ainda”, explicou o Diretor Clínico do hospital, Marcos Paulo Tiguman.

Em relação à falta de medicamentos, o representante dos médicos disse que existem problemas constantes. “Hoje falta, amanhã compram e aí falta outra coisa. Vários setores têm falta de insumos e medicamentos. E os profissionais vão se virando como podem, fazem empréstimos”.

Outros dois médicos, que pediram para não ter o nome divulgado, afirmaram que o atraso dos pagamentos afeta aproximadamente 300 profissionais. “Eu reduzi meus atendimentos na Santa Casa; não faço plantões porque eles não estão pagando nada, nem a produtividade. Na quarta-feira [10], chamaram a gente para conversar e a única proposta foi de nos pagarem um acréscimo no valor dos honorários. Mas ninguém fala de pagar o que está atrasado”, afirmou um dos profissionais.

“Converso com fornecedores e entre eles a informação é de alerta quando decidem vender para a Santa Casa. É um risco, então acabam colocando o preço mais alto no que é vendido. E vendem a prazo. Mas, como o hospital passa a dever, deixam aquela conta em aberto e fazem outra com novo fornecedor e por aí vai”, disse outro médico.

Porém, também há informação de que o hospital terceiriza as compras de medicamentos para uma empresa, que recebe quantias milionárias para garantir o abastecimento. Reportagem publicada pelo Correio do Estado na edição do dia 20 de maio deste ano mostrou que até mesmo para os conselheiros da Associação Beneficente de Campo Grande (ABCG), responsável por administrar a Santa Casa, os contratos individuais firmados com empresas terceirizadas são uma verdadeira “caixa-preta”. Em 2018, a entidade desembolsou R$ 22,3 milhões com serviços terceirizados. O valor corresponde a 60% do deficit – de R$ 37,5 milhões – verificado nas contas da entidade. Sem informações comprovadas de efetividade dos serviços prestados, envolvem a empresa Norge Pharma Comércio de Medicamentos e Materiais de Soluções em Saúde Ltda. 

“Os enfermeiros fazem empréstimos de outros setores. Existem também parcerias com outros hospitais e, às vezes, tomam por empréstimos de outras instituições”, disse Helena Delgado, representante do Sindicato dos Trabalhadores da Área (Siems).

Com informações, Correio do Estado.

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