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"O Maio de 68 foi o Março de 68 para o Brasil", afirma historiadora

10 maio 2018 - 14h38Por Redação Notícias VIP
O ano era 1968 e o mundo - incluindo o Brasil - passava por diversas mudanças. Na França , o governo de Charles de Gaulle propunha mudanças cada vez mais assertivas geranto uma revolta icônica da população. Se por um lado as medidas liberais e conservadoras se faziam hegemônicas, o movimento estudantil francês buscava lutar contra essa ascensão, reivindicando diversos direitos políticos e sociais. As greves foram constantes e, as reações policiais, mais ainda. O conflito já estava generalizado e ao lado dos operários, os franceses iniciaram uma greve geral durante o mês de Maio de 68.

Apesar da efervescência política " e também comportamental e cultural " no país, as mudanças não eram exclusivas da França. Para a professora do instituto de História da UFF e pesquisadora associada do centro de história social do século XX da Universidade de Paris, o Maio de 68 para o Brasil foi o Março de 68. "O meio francês é o mais reconhecido em todas as contestações que existiram, mas na verdade você tem dos Estados Unidos, o Japão, países da África, todos com rebeliões que estão contestando o movimento em voga", comenta.

Segundo a pesquisadora, na América Latina o despertar começou com muita influência da revolução cubana, que acabava de acontecer mostrando que havia uma possibilidade de mudanças. Em contrapartida, o Brasil fechava o primeiro ciclo do governo ditatorial de Castelo Branco com crescimento da militarização.

O ápice, entretanto, veio em Março de 1968 durante uma manifestação estudantil por melhores condições no restaurante Calabouço que teve como fim a morte do estudante Edson Luís. "Tem uma conjuntura muito específica. É bem verdade também que a própria conjunta francesa política pauta o movimento de lá que se tem uma ideia na memória que o movimento francês é muito maior em termos culturais e de comportamento, o que necessariamente não é uma verdade", explica.

Tempos depois, a passeata dos Cem Mil emergiu no Rio de Janeiro protestando contra a violência policial e, em especial, contra a morte do jovem de 18 anos. Na época, o fotojornalista Evandro Teixeira ganhou destaque pelas suas imagens fazendo registros que até hoje são utilizadas para relembrar o momento no país. Suas peças acabaram servindo de inspiração, inclusive,  para que outras performances artísticas sobressaíssem no país, como Carlos Drummond de Andrade que compôs o poema "Diante das fotos de Evandro Teixeira".

A cultura no Maio de 68

Nesse âmbito de efervescência cultural, a historiadora relembra que, no ano anterior no Brasil em âmbitos culturais, os festivais de música traziam muita música engajada como a MPB de Chico Buarque e Elis Regina. 

Entretanto, nem tudo foram flores. "É nesse ano que entra a tropicália. Eles são vaiados porque parte dessa juventude mobilizada do movimento estudantil era bem conservadora em termos comportamentais e estéticos. E quando digo conservadora é homofóbica e machista. Naquela época o feminismo nem era pauta", comenta.

Ainda que o Brasil mostrasse uma tendência de se abrir para o novo em termos culturais, algo que para a França já não era uma questão central, essa nova trajetória foi sentida só mais tarde, com influências também de outros movimentos, como o de contracultura dos Estados Unidos. "Certos anos que eles não podem ser reduzidos a um único calendário. O ano de 68 acaba abrindo uma certa agenda política e cultural, mas não se pode reduzir 68 só aos acontecimentos daquele ano, temos que entender o que está antecedendo em conjuntura maior e ver os desdobramentos disso", comenta.

Ainda que emergiam novas formas de pensamento e de se expressar no País, o fim do ano de 1968 terminou com a instauração do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que ficou conhecido por ser o mais severo de todos em que a cultura sofreu uma forte censura do governo. Os reflexos, por sua vez, apareceram nos anos 1970, trazendo como um ícone do momento o festival da gravadora Phonogram.

Com a música Cálice, que trazia diversas metáforas em que a crítica ao governo ditatorial era praticamente explícito,  Chico Buarque e Gilberto Gil subiram ao palco e tiveram os seus microfones cortados quando iniciaram a executar a canção. "Parte do movimento estudantil ainda estava tentando fazer luta armada, outra parte estava dentro das universidades fazendo luta pacífica e utilizando de ferramentas culturais", comenta a historiadora.

Influências francesas

A relação do Brasil com a França, por outro lado, não era de grandes convergências. "Naquela época tínhamos uma estética no Brasil de produção cultural que era muito voltada para valorização do nacional. Temos Glauber Rocha, por exemplo, com o cinema novo em 1968, que vai falar sobre esse país eldorado", afirma. Este cenário por sua vez explica a reação à contracultura tropicália, que trazia influências externas, e a exaltação do MPB.

Ainda que Caetano Veloso com sua inovação musical ressurge na época com a frase "É proibido proibir", retirada dos cartazes das manifestações de Maio de 1986 na França, a historiadora defende que, diretamente, o Maio de 68 não influenciou nos acontecimentos culturais no País.

"Dizer que o envolvimento de contestação ocorre por conta de um movimento francês não faz sentido porque temos todas essas especificidades. Entretanto, os eventos acabam conectando-se porque são construídos e reconstruídos em âmbito local", explica.  "A gente pode pensar que, de certa maneira, aquela época era o início de uma determinada pauta global. 68 é uma tomada de consciência coletiva", finaliza.

Com informações do IG Gente


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