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ECONOMIA

Bolsonaro diante da crise

Depois de aceitar a acusação de que Bebianno mentiu, o presidente não tem como mantê-lo no cargo. O episódio revela quem tem poder no governo – e como ele é exercido

14 fevereiro 2019 - 15h20

Só depois da primeira crise, se conhece o estilo e o caráter de um presidente. Só depois da primeira queda de ministro, pode-se dizer que o governo começou para valer.

A crise chegou rápido ao Planalto, menos de 45 dias depois da posse de Jair Bolsonaro, no mesmo dia em que ele deixou o hospital para assumir o comando do país em Brasília, enfim recuperado das sequelas do atentado que sofreu na campanha eleitoral. A primeira queda virá logo. Não há outra saída para o, até esta madrugada, ainda ministro da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, senão deixar o cargo.

Bebianno é personagem lateral no governo Bolsonaro. Mais importante, é o que o episódio revela sobre o centro real do poder (os filhos do presidente) e a forma como ele é exercido (via redes sociais).

A acusação de que Bebianno, presidente do PSL na campanha eleitoral, destinou recursos a uma candidata laranja, foi publicada no último domingo pelo jornal Folha de S.Paulo. Na segunda-feira anterior, denúncia semelhante, envolvendo uso de verbas legislativas, já atingira o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

Foi só dez dias depois, no momento em que o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, acusou Bebianno de mentir a respeito de conversas com o pai, que o laranjal do PSL despejou no colo de Bolsonaro toda a sua acidez.

Data da campanha o estranhamento de Carlos com o grupo peesselista que reúne Bebianno e Luciano Bivar, atual presidente da legenda. Artífice da bem-sucedida estratégia que projetou o pai nas redes sociais, Carlos se viu alijado de poder no momento em que o Bolsonaro se cercou do núcleo de políticos profissionais do PSL.

Do caso envolvendo outro de seus filhos, o senador Flávio, Bolsonaro manteve distância profilática, ajudado pelo afastamento de Brasília. Desta vez, Carlos o colocou no centro da crise, ao expor em público o conflito interno no PSL, principal partido de sustentação do governo.

Em tuíte e entrevista posterior, Bolsonaro afirmou ter pedido abertura de inquérito sobre o caso à Polícia Federal. Também deu apoio a Carlos assim que ele apresentou um áudio corroborando sua versão. Depois disso, não tem como manter no cargo um ministro que mentiu.

Para Bolsonaro, o principal efeito do episódio é político. Sem ocupar cargo, seus filhos se mostram mais poderosos que ministros. Tuítes se revelam ferramentas eficazes para que atinjam seus objetivos. Mas nem filhos nem tuítes põem o governo para funcionar.

Bolsonaro precisará de todos os votos que estiverem a seu alcance para aprovar no Congresso a reforma da Previdência, o pacote de segurança pública elaborado pelo ministro Sérgio Moro e qualquer outra iniciativa legislativa. Se seu próprio partido está conflagrado, que força ele pode esperar das demais legendas?

Enquanto o novato PSL se digladia, a sustentação do governo no Parlamento está a cargo do DEM, partido que comanda a Câmara, com Rodrigo Maia, e o Senado, com Davi Alcolumbre. O articulador político do governo é um desafeto de Maia no DEM, o ministro Onyx Lorenzoni.

Os conflitos se estendem pelo ministério. Propostas do ministro Paulo Guedes, como a reforma da Previdência e a abertura comercial, enfrentam resistências corporativas em outras pastas. O vice-presidente Hamilton Mourão desperta ciúmes em virtude de declarações que deu durante o período em que Bolsonaro ficou distante.

Todo início de governo conta com boa vontade em Brasília. Os casos Queiroz e do laranjal do PSL, ambos envolvendo filhos de Bolsonaro, contribuem para minar essa boa vontade e para acelerar os conflitos, tanto internos quanto externos. Não é um sinal alvissareiro a um país que precisa de reformas urgentes para escapar do abismo fiscal. Com informações, G1.

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