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Busca Sex, 15 de outubro de 2021
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MÚSICA

Como um disco fez o popular Odair José se afundar nas drogas e ser excomungado

Por Carol Assis
Enquanto Odair José dominava as rádios e vendia milhões de discos nos anos 1970, uma carta da DCDP (Divisão de Censura de Diversões Públicas) circulava recomendando que as gravadoras evitassem gravar um imoral. Dizia ali que eu era um péssimo exemplo para a juventude, que na minha cabeça era uma pornografia geral, ele relembra, hoje, com certo sorriso irônico no rosto.

Atento sempre aos assuntos populares -- principalmente aqueles que a gente joga para debaixo do tapete, ele observa--, Odair irritava os censores e os ouvidos mais puritanos ao falar de prostituição (na música Vou Tirar Você Desse Lugar), da pílula anticoncepcional (Uma Vida Só), do trabalho de uma empregada doméstica (Deixa Essa Vergonha de Lado), de divórcio (Agora Sou Livre) e até sobre lesbianismo (Forma de Sentir).
Mesmo com a censura na cola, Odair não estava preparado para ser malhado em praça pública por causa de seu projeto mais pessoal,O Filho de José e Maria, lançado em 1977. Espécie de ópera-rock, o disco narrava a história de um Jesus mais terreno com questões comuns à época. A descoberta da sexualidade e das drogas, por exemplo, fazia parte do calvário do personagem.

O que era para ser um marco na carreira acabou matando ali um ídolo popular, que vendia em média 500 mil cópias em cada lançamento.Quando o disco saiu, ninguém queria tocar. Uns achavam uma blasfêmia. Havia uma campanha entre os produtores de show para não me contratarem. De repente, eu era o inimigo número 1.

Quando um bispo de Campina Grande (PB) veio a publico excomungar o cantor, a coisa degringolou de vez. Eu estava usando drogas e bebidas, e a coisa estava ficando tensa. Fiquei mais doidão ainda. Peguei e cancelei todos os shows.

Hoje, aos 69 anos, um relaxado Odair José está prestes a revisitar as canções que tanto criaram controvérsia em três noites, no projeto O Lado B da Censura, no Sesc 24 de Maio em São Paulo,o foco são as canções que foram barradas pela censura na época. Agora é a vez de O Filho de José e Maria ser tocado na íntegra, acompanhado pela primeira vez pela banda Azymuth, que gravou o disco com Odair. Magos do som roqueiro e jazzista dos anos 1970, eles foram responsáveis por discos clássicos de Raul Seixas, Rita Lee, Elis Regina e Sérgio Sampaio.

O tom, no entanto, é de comemoração. Afinal, foi justamente quando desenterrou o disco maldito pela primeira vez, durante a Virada Cultural de 2013, que Odair voltou a criar. Desde então, gravou dois álbuns com canções inéditas e a verve roqueira até então esquecida. Enquanto isso, o LP de O Filho de José e Maria é disputado a tapas nos sebos e chega a custar até R$ 500.

Em um dos últimos shows, recebeu o cumprimento de um fã mais velho: Você está diferente daquele Odair José. O cantor rebateu: Não, esse é o Odair José. O diferente é esse dos últimos 20 anos, aquele ali não era Odair José.
Ao relembrar o caso, ele se redime: Me desculpem. Aqueles discos eram ruins.

SERVIÇO:
No Sesc 24 de Maio, em São Paulo

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