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Menininho Bolsonaro, ‘Não se meta’

25 abril 2019 - 18h30


Carlos, sossegue, a política   /   é isso que você está vendo:   /   hoje realista, amanhã sem entender,   /   depois virá a eleição   /   mas hoje há um país a ser governado   /  

e  ninguém sabe   /   o que será.

Inútil você resistir   /   ou mesmo se meter em assuntos   /   que não lhe cabem.
Não mate todo um trabalho   /   Ele precisa ser feito,   /   Cuide de sua função numa Câmara Municipal qualquer   /   deixe o trabalho de homens   /   para os homens.   /  

Sua vez chegará,   /   se é que chegará.

Reserve-se todo para o futuro ///   que ninguém sabe   /   quando virá,   /   se é que virá.
...
Entretanto você caminha   /   melancólico e vertical.
Você é a palavra não ouvida, você é o grito   /   que ninguém leva a sério.

A política  no escuro, não, no claro,   /   é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,   /   ninguém sabe nem saberá.
Não se meta.

 

Parafraseando Carlos Drummond de Andrade , in Poesia completa.  2002.

 

Parece que a cada dia fica mais evidente que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, é uma pessoa assustada com sua própria eleição. Realmente não se despiu do papel de mito; pior, os príncipes regentes, criados e acostumados com as histórias de “pai herói”, apenas histórias, lendas e pouca verdade, sem as necessidades daquela população que dizem representar, mas que conhecem e reconhecem apenas de longe, com poucos beijos e abraços durante a campanha eleitoral.

O que pretendem o pai permissivo e o filho agressivo? Não é o general Mourão que causa os conflitos, ele apenas expressa sua capacidade de articulação. É uma pessoa culta e afável que compreende a democracia, o estado de direito, o diálogo. Transita com desenvoltura entre na classe política, empresarial atuando como um freio na desgovernada gestão de um capitão que, por vezes, beira o ridículo.

Questionado por um aluno da Harvard, durante palestra, que inquiriu sobre o fato de o general “de plantão na presidência da República”, Ernesto Geisel haver proporcionado a abertura para evitar um maior desgaste das Forças Armadas, uma vez que elas são instituições de Estado e não de Governo, e qual a diferença para esse atual governo que entregou cargos a diversos militares – e isso não seria um retrocesso – Mourão respondeu de primeira: “A diferença é que eu fui eleito (vice-presidente) e Geisel não”.

Mourão sustentará o governo Bolsonaro, junto com Onix Lorenzoni. Goste, ou não, concorde ou não. Críticas, ferrenhas ou amenas fazem parte do jogo democrático, felizmente, pois como já dizia Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com unanimidade não precisa pensar”.

O Brasil sempre foi um país de donos, e os donos mais donos, foram estadistas. Pedro I, Pedro II,  Getúlio Vargas. Outros menos donos e mais democráticos, também estadistas: Juscelino Kubitschek e Fernando Henrique Cardoso. Outro, dono e senhor, entregou aos amigos, Lula.

Bolsonaro foi eleito no susto, sem votos para si, mas contra os outros. Cansamos. Queremos nossa jovem democracia oxigenada, livre, discutida, brigada. Queremos nossa Democracia. Hoje a população questiona o Judiciário, pois não entendemos a verborragia que sustenta nossas Leis. Benéficas para uns, permissiva para os amigos, cruel para esse populacho que eles ignoram e desconhecem.

Carlos, sossegue. Tudo o que você faz é um desserviço. Presidente, decida se você vai exercer seu mandato como pai primoroso ou chefiar uma Nação? Deixe seu filho trilhar seu caminho político, com o tamanho que lhe cabe, vereador, que não se sobrepõe ao vice-presidente do Brasil, sequer a ministros e secretários.

Não sei se existe ainda, mas caso esteja no mercado, compre aqueles joguinhos – WAR e Banco Imobiliário e deixe ele brincar, até que se torne adulto suficiente para saber o que lhe cabe.

Exceto exceções, prefiro o atual ministério, prefiro o vice-presidente, prefiro que Bolsonaro assuma sua patente e obedeça a hierarquia militar. Chefe maior das Forças Armadas, saiba delegar funções. Entenda que “dentro de casa mando eu, mas as atribuições profissionais, delegadas pela população, me tornam refém de uma coisa maior, a tal Democracia”

 

 

Jornalista Dirceu Martins.

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