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Mato Grosso do Sul

MS tem aves que ninguém mais tem

06 novembro 2020 - 18h00Por Portal do MS

Campo Grande (MS) – Passarinhar. Parece uma daquelas palavras (re)inventadas e que só os poetas sabem usar, talvez pescada de algum poema de Mario Quintana ou, quem sabe, de Manoel de Barros. Mas não é.

Quem quiser se dar ao trabalho, pode abrir qualquer dicionário e vai encontrar. O significado aqui, porém, é outro. Se para o Houaiss, Aulete, Aurélio e Michaelis, passarinhar é caçar pássaros, vadiar, bolinar ou mesmo alguma coisa relacionada a cavalos, para quem curte o ecoturismo é o hobby de observar aves. Em inglês: birdwatching.

E um dos melhores lugares para essa contemplação é Mato Grosso do Sul. O Estado tem uma das mais ricas faunas do Brasil. São 630 espécies de aves catalogadas, 32% das existentes no país, sendo que duas delas não existem em nenhum outro lugar do mundo: rapazinho-do-chaco e tiriba-fogo.

A explicação para essa riqueza, em parte, está na presença de quatro biomas no Estado: Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Chaco – sendo que esse último não é considerado um bioma brasileiro, estando presente apenas em Porto Murtinho.

Espécies endêmicas

Rapazinho-do-chaco (Nystalus striatipectus) tem 23 centímetros de comprimento, pescoço marrom com peito e cabeça salpicados de branco. Aliás, o nome científico do pássaro, que vem do grego, significa “sonolento com o peito estriado”. Com um bico longo e avermelhado, alimenta-se de insetos e pequenos artrópodes, como formigas e aranhas.

Já o Tiriba-fogo (Pyrrhura devillei) é um pouco maior, mede entre 25 e 28 centímetros de comprimento. A cabeça é escura e o corpo esverdeado, com uma parte vermelha bem viva debaixo das asas que segue formando uma pequena linha na parte superior. A cauda também é avermelhada, mas de um tom opaco. O Tiriba-fogo voa em bandos de 6 a 12 indivíduos e se alimenta de uma grande variedade de nozes e frutas.

O nome científico também vem do grego e significa “ave de Deville com cauda vermelha”. É uma homenagem ao francês Émile Deville (1824–1853), que coletou e descreveu diversas espécies de aves, principalmente periquitos, em uma expedição à América do Sul.

Do luxo ao mundo

A origem do birdwatching é inglesa. Era um hobby da nobreza, no século XVIII. Hoje, o país com o maior número de observadores é os Estados Unidos, com 70 milhões de pessoas praticando o birdwatching. Já no Reino Unido são 5 milhões.

Mas é na América do Sul que estão os lugares com maior variedade de aves. Com 1.919 espécies, o Brasil ocupa a segunda posição no mundo, atrás apenas da Colômbia.

No país em que a seleção de futebol ganhou o apelido de um pássaro (Canarinho), a observação de aves é algo novo e que em ganhado adeptos nos últimos anos. Por isso mesmo, o passarinhar entrou no radar do trade e a Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur) passou a monitorar esse segmento no ano passado.

A estimativa é que existam cerca de 100 mil observadores no Brasil, sendo quase 40 mil deles ativos. Os outros passarinham eventualmente. Os brasileiros que participam desse passatempo fazem questão de fotografar as aves. Na prática, eles se tornam colecionadores de registros.

Geancarlo Merighi já registrou 386 espécies (foto: Edemir Rodrigues)

Quem explica é o diretor de Desenvolvimento do Turismo e Mercado, Geancarlo de Lima Merighi, também um observador de pássaros. “O observador de aves é um colecionador. Ele coleciona fotos e aí acontece uma competição de quem registra mais espécies. E eles viajam o mundo todo atrás de novos pássaros”, disse.

O passarinhar é uma competição saudável e ecológica. Os observadores fazem o registro dos animais soltos na natureza, no habitat natural. Em alguns lugares é permitido o uso do chamado playback, que é a gravação do som do pássaro.

“O observador tem uma alta consciência ecológica. Em Mato Grosso do Sul, o uso do playback é permitido, mas ele tem que ser usado com respeito. A ave é atraída pelo som para acasalar ou para se defender. Você pode até usar o som algumas vezes até a ave aparecer e depois parar. O que não se deve é continuar atraindo o pássaro por muito tempo em busca de uma foto perfeita porque você estressa o animal e ele pode até abandonar o ninho”, explicou Geancarlo.

Turismo lucrativo

Ave símbolo do Pantanal, o Tuiuiú (foto: Edemir Rodrigues)

O Brasil tem mais de 30 clubes e associações ligadas à observação de aves. O gasto médio do observador é de R$ 400 a R$ 500 por dia e muitos passam vários dias e até semanas fazendo turismo, atrás do registro da espécie que falta na coleção.

Capital da Observação de Pássaros

Entre os melhores municípios para a observação de aves em Mato Grosso do Sul estão Campo Grande, Terenos, Jardim, Miranda, Bodoquena, Aquidauana, Corumbá, Miranda, Porto Murtinho, Ivinhema, Costa Rica e Alcinópolis.

Com 400 espécies e 30 pontos de observação, incluindo parques de natureza exuberante, Campo Grande recebeu o título de Capital do Turismo de Observação de Aves. Tem alma-de-gato, anu-branco, ariramba, araçari-castanho, arara-canindé, arara-vermelha, bem-te-vi, coruja-buraqueira, curiaca, gavião-pega-macaco, jaçanã, maracanã-do-buriti, sabiá-laranjeira, quero-quero, tico-tico-rei, tucanuçu, joão-bobo, martim-pescador-pequeno, murucututu e muitos outros.

Mutum é uma ave comum no Parque dos Poderes, em Campo Grande (foto: Edemir Rodrigues)

Para ver, basta prestar atenção.

 

CANÇÃO DO EXÍLIO (trecho)

 

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá”

Gonçalves Dias

 

Paulo Fernandes - Subsecretaria de Comunicação

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