Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil consideram que os governos estaduais e federal demoraram para agir em relação aos incêndios no Pantanal. Eles apontam que a região sofre com a seca e um número incomum de queimadas desde os primeiros meses do ano, mas as autoridades só demonstraram preocupação com o bioma quando os incêndios atingiram níveis alarmantes.

Representantes de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul negam que tenham demorado para agir no combate aos incêndios do Pantanal. Eles afirmam que desde o início do ano têm acompanhado a situação do bioma e alegam que tomaram medidas conforme a disponibilidade de pessoas e equipamentos de cada um dos dois Estados.

Em meados de julho deste ano, o governo federal publicou um decreto em que proibiu queimadas em todo o território nacional por 120 dias. Especialistas apontam que a medida é ineficaz, pois não há intensa fiscalização sobre o assunto.

Um levantamento feito pela BBC News Brasil apontou que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) diminuiu o ritmo das operações de fiscalização em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Segundo o levantamento, que comparou dados de janeiro a setembro, as autuações no bioma (como desmatamento e queimadas ilegais) caíram 48% neste ano, em comparativo ao mesmo período de 2019.

Servidores ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil, publicada na terça-feira, relataram que a queda de autuações do Ibama ilustra a redução do número de fiscais do instituto.

"O número de autuações lavradas é um dado importante que pode traduzir o esforço do governo em punir realmente aqueles que cometem crimes ambientais. Quanto menor a presença da fiscalização em campo, fazendo o seu trabalho de responsabilizar os infratores, maior a sensação de impunidade", disse um servidor do órgão, sob condição de anonimato.

O Ibama e o Ministério do Meio Ambiente não responderam ao questionamento da BBC News Brasil sobre os motivos para a queda de multas aplicadas nos Estados do Pantanal.

Em 25 de julho, o governo federal, por meio do Ministério da Defesa, encaminhou profissionais e aeronaves para ajudar no combate ao fogo no Pantanal, pouco após as queimadas se intensificarem na região.

O Ministério da Defesa afirma que há, no combate ao fogo no bioma, "200 militares e 230 agentes de órgãos como Corpo de Bombeiros Militar de MT e MS, Secretaria de Estado de Segurança Pública (de MT e MS), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)."

Ainda segundo a pasta, 14 aeronaves têm sido utilizadas no combate aos incêndios, entre helicópteros e aviões.

Nesta semana, o governo federal reconheceu oficialmente que há uma situação de emergência nos Estados do Pantanal Brasileiro. A medida permite que a União faça repasses adicionais de recursos para os governos estaduais, para reforçar o combate ao fogo.

Na quarta-feira (16/09), o governo federal liberou R$ 3,8 milhões para auxiliar no combate às queimadas em Mato Grosso do Sul e R$ 10,1 milhões para Mato Grosso.

Para especialistas, as ações das autoridades devem ter pouco resultado no combate às queimadas no Pantanal, em razão do atual cenário do bioma destruído pelo fogo.

"O governo não mandou equipe suficiente para ajudar a combater o fogo nas proporções que atinge o Pantanal. Falta empenho para resolver esse caso dramático. Deveriam mobilizar muito mais profissionais para ajudar", diz Marcos Rosa, coordenador técnico do MapBiomas, iniciativa que monitora a situação dos biomas brasileiros.

Sampaio, do WWF, considera que, além de uma equipe pequena, há poucas aeronaves e equipamentos insuficientes para combater as chamas no Pantanal. Por isso, segundo ele, os incêndios continuam avançando com rapidez pelo bioma.

"Na magnitude atual do fogo, é uma situação muito difícil. Se juntarmos todos os esforços de Mato Grosso do Sul, por exemplo, poderia dar um alento, mas seria insuficiente (para controlar os incêndios no Pantanal)", diz Alexandre, do Prevfogo.

Grande esperança para amenizar a tragédia no Pantanal, a chuva na região ainda é incerta. "Em nossas análises, não há previsão (de chuva) por enquanto. A expectativa é de que chova no fim de outubro", diz Marcos Rosa. "Somente a chuva, por vários dias, pode diminuir esses incêndios. Se a seca perdurar por mais um ou dois meses no Pantanal, a situação vai ficar realmente sem controle", acrescenta o coordenador técnico do MapBiomas.